5 motivos para não se usar microblogues em educação
Introdução
Embora a “rudimentar rede de conexão social” (segundo Biz Stones), aka twitter, já esteja passando da fase de hype para mainstream entre descolados, moderninhos e céticos de todos os tipos, sempre ocorre um fenômeno comum a vários setores da sociedade, e não seria diferente em Educação:
Virou “moda” ou “fetiche” achar que os microblogues são o grande rei da cocada preta e que o seu uso geral em Educação será/é o grande pulo do gato!
Correndo o risco de parecer mais rabugento do que normalmente sou com esta ferramenta, resolvi escrever os 5 motivos pelos quais *eu*, após experimentá-la intensamente, descarto-a como ferramenta, de uso geral, adequada a uma educação para a Era da Informação e do Conhecimento.
PS: Eu continuarei a usar um perfil “corporativo” para fins de investigação. Não investigação de usos educativos, que como argumentarei a seguir considero descartado!
Meus 5 motivos
- Aprendizagem passa necessariamente por reflexão – Quando se está aprendendo algo ou quando se está organizando atividades que potencializem aprendizagens é fundamental que se tenha reflexões e decantação de ideias. Quer seja a reflexão antes de se responder a uma indagação, quer seja a reflexão sobre um novo conceito ou mesmo o tempo necessário para “a ancoragem” com conhecimentos prévios. Incentivar o fluxo contínuo (e irrefletido) de informações contribui muito mais para a produção de ruídos que podem ser nocivos a compreensão de ideias, valores ou conceitos do que se está aprendendo e/ou ensinando.
- Aprendizagem em rede passa por organização dos fluxos informacionais – A perspectiva sócio-interacionista da aprendizagem reforça a importância das interações e da linguagem nos processos de aprendizagem, entretanto esta perspectiva destaca que “quanto mais ricas as interações, maior e mais sofisticado será o desenvolvimento…” e convenhamos, não poder haver riqueza de interações, no caso geral, com apenas 140 caracteres!
- Organizar a aprendizagem passa por escolher as ferramentas mais adequadas. – Não se trata aqui de rejeitar ou endeusar ferramentas a priori (como se costuma fazer com o twitter). Mas é papel dos professores comprometidos com o presente e o futuro de seus alunos refletirem criticamente sobre quais ferramentas se adequam a objetivos educacionais e não quais objetivos educacionais se adequam a ferramenta da moda! É possível que em situações bem específicas os microblogues possam ser hackeados para usos educacionais. Mas me parece uma grande temeridade e forçada de barra se usar o twitter no lugar de ferramentas dedicadas e adequadas a fins específicos.
- Aprendizagem cooperativa não prescinde da mediação daquele que aprende há mais tempo! – Considerando especificamente a realidade do professor brasileiro que atende a uma quantidade enorme de alunos no seu cotidiano docente (no ensino básico, por baixo, um professor atende em média mais de 300 alunos numa estimativa muito otimista!) é realmente coisa de quem não está na sala de aula real acreditar que um professor possa administrar, minimamente bem, o fluxo contínuo de informações (não indexadas e nem sempre contextualizadas com objetivos educacionais previamente organizados) que esta ferramenta possa produzir. Não se enganem, desenvolver a capacidade de gerenciar suas próprias aprendizagens não é favorecida numa ferramenta que incentiva a produção irrefletida e contínua de fluxos informacionais. Receio mesmo que em cursos superiores este fluxo contínuo possa impactar negativamente na habilidade de gerenciar aprendizagens, mesmo numa perspecitiva conectivista de aprendizagem!
- Aprendizagem requer auto-reflexão – Uma característica importante de quem aprende é perceber sua evolução ou olhar em perspectiva sua capacidade de tratar determinado objeto de aprendizagem. Uma ferramenta que não favorece a indexação do fluxo informacional dificulta este olhar em perspectiva, tão importante no ato de aprender e, mais importante de tudo, de aprender a aprender!
Alternativas
Observando o que se tem proposto para o twitter em contextos educacionais e levando em conta os argumentos acima (especialmente o terceiro) indico abaixo ferramentas que me parecem mais adequadas para o contexto educacional do que os microblogues:
Compartilhamento de Endereços
Aprender em rede e com uso das ferramentas da web 2.0 pode passar muitas vezes pelo compartilhamento de endereços web que sejam úteis para uma comunidade de aprendizagem ou mesmo para um subconjunto desta comunidade. Tão importante quanto compartilhar endereços e aplicativos web é achá-los depois de compartilhados.
Para estes casos no lugar do twitter, que embora até sirva para esta função é péssimo na indexação das informações compartilhadas por conta da sua restrição de 140 caracteres, é muito mais adequado usar um gerenciador social de favoritos (bookmarks).
Delicious pra quem não pode hospedar sua ferramenta e get-boo pra quem pode, são duas opções muito mais efetivas que uma conta no twitter!
Tanto o Delicious quanto o get-boo permitem compartilhar um endereço web (link), etiquetá-lo (”tagueá-lo”), inserir observações e muitas outras coisas que ficam prejudicadas no twitter.
Aqui um exemplo do get-boo aplicado numa comunidade de aprendizagem de física!
Conversas, discussão, projetos, etc
Discussões de projetos, anúncios rápidos ou não, organização de projetos, Brainstorms, aprendizagens diárias e tudo o mais que é proposto neste texto aqui pode ser muito melhor implementado com o bom e infalível blogue! E sim, você também pode fazer isto usando seu dispositivo móvel!
Uma discussão temática num blogue é muito melhor indexada e, do ponto de vista didático, mais organizada que usando microblogues.
A mediação daquele que aprende há mais tempo é facilitada numa ferramenta otimizada para organizar as discussões ou conteúdos por mais de um indexador (data, tag, categoria).
A qualidade de discussão é incomparável quando você não se restringe a 140 caracteres. Repare que a falta de limite técnico aos 140 caracteres não implique que você não trabalhe a concisão dos argumentos dos participantes da comunidade.
E se você escolher adequadamente seu motor de blogue, a escrita no mesmo, pelos vários integrantes da sua comunidade de aprendizagem, pode ser tão simples e otimizada quanto você queira e, possívelmente, até mais familiar do que nos microblogues.
Aqui um exemplo de blogue nesta perspectiva integradora. E aqui um exemplo de motor de blogue otimizado para ser alimentado via e-mail!
Gerenciamento da Inteligência Coletiva
Um dos vários motivos porque microblogues em educação é uma péssima ideia (em minha opinião), numa perspectiva de educar para a Era da Informação e do Conhecimento e não para o século XIX é que os microblogues não gerenciam bem a inteligência coletiva gerada nas interações. Mesmo utilizando-se os seus motores internos de busca avançada, não se consegue ter um ideia de quanto foi discutido, evoluído e produzido de inteligência num determinado coletivo aprendente.
Ao contrário dos microblogues, um gerenciador de listas de discussão (google grupos, yahoo grupos ou MailMan se você pode/quer instalar o seu próprio gerenciador no seu servidor) permite não só que as discussões possam fluir na sua comunidade como se encarrega de gerenciar no melhor estilo “menos é mais” a inteligência coletiva gerada pelas interações da comunidade.
Discutir (rasteiramente) no twitter além de ser um desperdício de tempo não permite que a inteligência coletiva que emerge do grupo possa ser, facilmente, gerenciada!
Interações Síncronas
E se você precisa, por uma demanda pedagógica, de interação síncrona você sempre poderá inserir no seu blogue um widget de chat!
E se o perfil sócio-econômico-tecnológico de sua comunidade permitir, você ainda pode fazer uso de sms para espalhamento (broadcast) de informações urgentes. O maior problema aqui é que o preço praticado pelas operadoras para o uso de sms no Brasil ainda é proibitivo. Mas este problema também atinge o uso dos microblogues mais intensamente em dispositivos móveis!
Uma última observação
Embora nesta altura do campeonato isto já devesse ser óbvio para qualquer pessoa que já tenha entrado no mundo dos adultos, sempre vale a pena relembrar e enfatizar. Não existem absolutos! Algo que falha miseralvelmente pra mim pode funcionar lindamente pra você. E vice-versa!
Tenha isto em mente antes de pegar as pedras
E sim, os comentários estão abertos às suas considerações, afinal as conversações são muito melhores com mais de 140 caracteres, com reflexão e, mais importante de tudo, numa interface que organize as várias falas de modo organizado e intuitivo.
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fevereiro 9th, 2010 at 6:15 pm
e=mc2. 3 letras, 1 algarismo. Um monte de reflexão, em muito menos do que 140 caracteres.
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Opa Marinho
Este é o ponto! Para se chegar a síntese de que E=mc2 muita reflexão (com mais de 140 caracteres) foi feita! A versão resumida não é compreendida de bate pronto nem com várias seções de 140 caracteres.
É necessário muito estofo teórico para se compreender toda a física por trás do E=mc2
Se o objetivo é aprender, apresentação de resumos e discussão resumida de ideias não levam a lugar nenhum
Mas obrigado por qualificar o texto com uma ótima provocação
abs
março 1st, 2010 at 1:18 pm
[...] Aprendendo em Redes de Colaboração na Era da Informação do Conhecimento « 5 motivos para não se usar microblogues em educação [...]
março 7th, 2010 at 11:53 am
No país onde a média de leitura de livros/ano não passa de 2 títulos escrever 140 caracteres em microblogs já é alguma coisa. Nossos alunos detestam a escrita pq não conseguem ver significado nela já que, geralmente, ela é “ensinada” como um fim em si mesma, ou seja, descontextualizada socialmente. Escrever para outras pessoas – seguidores – demanda planejamento e adoção de comportamento escritor (desenvolvimento de habilidades específicas). Além disto, os microblogs são excelentes ferramentas para se escrever resenhas, resumos, indicar leituras, comentar links indicados por outros, ficar informado sobre assuntos de interesse. E estas competências e habilidades leitoras e escritoras não podem ser relevadas. Há que se aprender a usar as ferramentas dentro de suas limitações e possibilidades. E o ensino deste uso consciente e adequado passa necessariamente por um processo de reflexão e interação entre sujeitos do aprender e do ensinar.
Um abraço!!
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Opa Junior,
Obrigado por participar das conversações apresentando outro ponto de vista.
Eu concordo que nossos alunos, de um modo geral, detestam a escrita. Mas ao se usar outras ferramentas (listas de discussão e blogues por exemplo) eles podem se apropriar desta habilidade sem as limitações dos 140 caracteres.
Ser sucinto requer já alguma habilidade com a escrita. Por isto não acho os microblogues boas escolhas, mesmo olhando por este ângulo.
A característica dos microblogues que mais os desabona, para fins educacionais, nem é tanto o limite dos 140 caracteres, mas o fluxo contínuo e irrefletido de escrita.
Como você bem lembrou, o desenvolvimento de habilidades específicas só se dá experimentando esta habilidades específicas… do modo mais mais livre possível.
Quer escrever uma frase, uma linha ou um parágrafo… faça. Leia outras pessoas. Não passe os olhos, leia!
Tudo isto descarta uma ferramenta que restringe aos 140 caracteres e incentiva a falta de reflexão!
Mas repito, é uma opinião pessoal, não um dogma!
abs
março 11th, 2010 at 3:58 pm
No país onde a média de leitura de livros/ano não passa de 2 títulos escrever 140 caracteres em microblogs já é alguma coisa. Nossos alunos detestam a escrita pq não conseguem ver significado nela já que, geralmente, ela é "ensinsda" como um fim em si mesma, ou seja, descontextualizada socialmente. Escrever para outras pessoas – seguidores – demanda planejamento e adoção de comportamento escritor (desenvolvimento de habilidades específicas). Além disto, os microblogs são excelentes ferramentas para se escrever resenhas, resumos, indicar leituras, comentar links indicados por outros, ficar informado sobre assuntos de interesse. E estas competências e habilidades leitoras e escritoras não podem ser relevadas. Há que se aprender a usar as ferramentas dentro de suas limitações e possibilidades. E o ensino deste uso consciente e adequado passa necessariamente por um processo de reflexão e interação entre sujeitos do aprender e do ensinar.
Um abraço!!
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Opa Junior,
Obrigado por participar das conversações apresentando outro ponto de vista.
Eu concordo que nossos alunos, de um jodo geral, detestam a escrita. Mas ao se usar outras ferramentas (listas de discussão e blogues por exemplo) eles podem se apropriar desta habilidade sem as limitações dos 140 caracteres.
Ser sucinto requer já alguma habilidade com a escrita. Por isto não acho os microblogues boas escolhas, mesmo olhando por este ângulo.
A característica dos microblogues que mais os desabona, para fins educacionais, nem é tanto o limite dos 140 caracteres, mas o fluxo contínuo e irrefletido de escrita.
Como você bem lembrou, o desenvolvimento de habilidades específicas só se dá experimentando esta habilidades específicas… do modo mais mais livre possível.
Quer escrever uma frase, uma linha ou um parágrafo… faça. Leia outras pessoas. Não passe os olhos, leia!
Tudo isto descarta uma ferramenta que restringe aos 140 caracteres e incentiva a falta de reflexão!
Mas repito, é uma opinião pessoal, não um dogma!
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abs
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março 17th, 2010 at 1:29 pm
O comentário foi totalmente excluído por ser completamente fora do tópico desta entrada no blogue, assim como de todo o conteúdo do blogue.
Propagandas até podem ser admitidas mas só se, minimamente, tiverem alguma relação com o blogue.
O editor!
março 19th, 2010 at 2:54 pm
Sérgio,
Comentei no seu comentário, lá no meu blog…um troca-troca, veja lá:
http://nepo.com.br/2009/09/18/sala-de-aula-2-0-sera-sem-micro-e-sem-internet/comment-page-1/#comment-6012
abraços,
Nepô.
abril 8th, 2010 at 8:04 pm
[...] This post was mentioned on Twitter by TICs em Educação. TICs em Educação said: http://bit.ly/8XueGK 5 motivos para não se usar microblogues em educação #ad [...]
abril 8th, 2010 at 11:04 pm
O teu texto, o comentário do Marinho, a tua resposta, o texto do Nepomuceno e o teu comentário lá valem a viagem
Em especial por teres mencionado uma coisa que é aquele óbvio que sempre precisa ser dito: os recursos devem ser definidos depois de traçados objetivos e organizado conteúdos
Ou junto, mas não antes.
abraços!
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Opa Su,
É até compreensível o deslumbramento com as novas tecnologias que vão surgindo. É desejável até se experimentar, mas sempre com critério. Primeiro se define os objetivos educacionais e somente depois (ou durante) se escolhe as ferramentas.
Mas a mercantilização da educação faz muita gente pensar sempre na ordem inversa, *podendo* impactar negativamente nos resultados esperados.
abs
abril 18th, 2010 at 11:45 am
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junho 23rd, 2010 at 10:32 am
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julho 20th, 2010 at 10:00 am
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julho 20th, 2010 at 10:49 am
Tenho a impressão que sua principal “richa” com o twitter é o limite de 140 caracteres. Estou “na luta” para me familiarizar com essas novas ferramentas virtuais, exatamente com a intenção de utilizá-las em minhas estratégias metodológicas. Sou professor e leciono Física e Matemática em escolas públicas. Até o momento não vejo o porque de descartar o twitter como recurso didático-pedagógico. Na verdade, leciono bem sem usar qualquer desses novos recursos. Eles não nasceram com essa finalidade específica, cabe a nós professores CONSTRUIR sua utilização para fins específicos. Se eu lecionasse Lingua Portuguesa, por exemplo, já estaria considerando o twitter, como em seu texto, ” …o rei da cocada preta…”, pois estou realmente APRENDENDO no twitter a mobilizar melhor minhas habilidades de manipulação dos “recursos” da nossa língua para conseguir sintetizar minhsa impressões, meus comentários, minhas ideias (às vezes deveras complexas) em 140 caracteres. Às vezes não consigo mesmo, mas a sensação de APRENDIZAGEM fica! Provavelmente eu não tenha sido claro o suficiente em minha exposição e certamente não conseguiria sê-lo em apenas 140 caracteres, mas é um excelente exercício de regência, concordância, semântica, etc. Vale a pena tentar!!!!
julho 21st, 2010 at 6:53 am
Ola James,
O ponto central que defendo é: Objetivos educacionais é que determinam a escolha das tecnologias e não o contrário.
Mas obrigado por enriquecer a discussão com a sua opinião.
Abs